Pai para onde vamos?" Dizia Beatriz no banco de trás do carro de família. "Já vais ver Beatriz, é surpresa" diz-lhe ele. Beatriz não conseguia conter a sua curiosidade, afinal tinha apenas oito anos e sabia bem que o pai sempre lhe dizia que era surpresa mas tentava de cada vez que iam de viagem. "Bia" , "Sim mãe?" , "Queres que te conte a história da menina dos fósforos?" "sim mãe, não sei qual é.." , "Era uma vez uma menina como tu, era muito pobre e não tinha pais, não tinha nada, vivia num orfanato, um dia no inverno , ela perdeu-se na cidade , e só tinha com ela uma caixa de fósforos, pela noite ela não tinha com se aquecer, foi gastando os fósforos um a um, quando acendeu o último um homem alto apareceu, e perguntou-lhe o que fazia ali, ela disse que era órfã e que se tinha perdido e não tinha para onde ir, o homem diz-lhe vem comigo, ela foi, levou-a para casa aonde ele e a mulher cuidaram dela e a adotaram e ela viveu feliz para..". Enquanto Beatriz pensava na menina, um carro em contramão ofusca os olhos de Beatriz. Beatriz acorda no hospital, nos primeiros momentos não parece perceber onde se encontra mas quando viu as batas brancas percebeu. A médica e assistente social encontram-se ao fundo da cama mas Beatriz não faz ideia porque é que há uma senhora de cartão-de-visita no peito, ao lado da médica, a senhora aproxima-se. "Beatriz os teus pais morreram...te. Beatriz não ouviu mais nada desatou a chorar passado algum tempo, Beatriz lembra-se da história que a mãe lhe contou e acalmou. Beatriz foi levada para um orfanato, mas depressa descobriu que histórias são histórias e que recém-nascidos e crianças até aos quatro anos são adotadas, e que a partir da idade dela a esperança e a sorte conjugam-se pois a solidão destas é também a de Beatriz. É agora inverno Beatriz tem nove anos, e lembra-se todos os dias da história da mãe, Beatriz tem consigo uma caixa de fósforos, pediu uma logo que chegou ao orfanato, e a assistente social explicou o porquê. Beatriz acende um dos fósforos, deixou o fogo queimar a madeira lentamente, mais uma vez lembrou-se da história que a mãe lhe contara e então num impulso começa a correr, sai do orfanato, continua a correr, passa pela mercearia e o talho e continua a correr, quando parou já o sol se punha e as ruas aguardavam a escura noite, o frio fazia-se já sentir, Beatriz corria mas mais devagar toda aquela adrenalina tinha-a esgotado, quando as forças lhe faltaram, já a lua ia alta no céu, parou e encostou-se a uma parede sentou-se lentamente pôs os braços sobre os joelhos e a cabeça entre eles e começou a chorar, assim continuou até começara sentir os primeiros arrepios de frio e a temperatura corporal a descer, começou a tremer e os dentes a bater , lembrou-se da caixa de fósforos que tinha consigo, tentou encontrar uns paus, encontrou cinco paus mirrados pelo frio mas estes ainda assim arderam quando Beatriz os acendeu, foi aquecendo as mãos, não dava para mais. Os paus acabaram de arder , e só restava a Beatriz três fósforos ,já não conseguia mover as pernas acendeu um e começou a lembrar-se da história da mãe, acendeu o segundo e a esperança saia lhe pela boca, quando só a menina dos fósforos era a única coisa que lhe restava na memória, acendeu o terceiro, este queimou a madeira lentamente lascas pequenas saltavam para o vento gelado, por fim o fogo passou a um pequeno fio de fumo levado pela noite.
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